O meu percurso: de um miúdo sem um tostão a um serial entrepreneur em África

Esta história foi publicada pela primeira vez no final de 2016 em stileex.xyz, onde chegou a milhares de leitores e reuniu mais de uma centena de testemunhos. Republico-a aqui, no meu próprio site, tal como foi escrita (última atualização da época: julho de 2020), seguida de um epílogo. Texto original em francês.

Que longo caminho percorrido desde a minha infância de miúdo oriundo da classe operária imigrante, sem um tostão no bolso. Mas como é que me tornei empresário, quando me destinava a uma carreira de investigador em matemática? E como consegui dar a volta por cima depois de ter tocado no fundo, ao falhar a minha primeira experiência de fundador de empresa?

Antes de começares a ler o meu percurso, gostava que levasses contigo esta mensagem:

Sejas quem fores: pobre, rico, homem, mulher, desempregado, CEO, estudante... Dar-te-ei sempre pelo menos 10 minutos do meu tempo se quiseres conversar comigo.

Uma formação académica em matemática

Obtive o meu baccalauréat científico em 1999 com distinção, especialidade matemática e opção «europeia». Logo a seguir fui admitido nas classes préparatoires aux grandes écoles (as classes preparatórias intensivas para as grandes escolas francesas) no liceu Janson de Sailly (Paris, 16.º bairro), no ano de maths sup. Mais precisamente na turma «Sup4», caso antigos colegas se reconheçam ;)

Passei depois para MP* (maths spé), sempre em Janson de Sailly. Nessa turma preparávamos as escolas mais exigentes: ENS, École Polytechnique, Centrale, les Mines, Supélec, etc. Aliás, o meu único sonho na época era entrar na École Polytechnique; as outras escolas não me interessavam nada.

Mas falhei o concurso uma primeira vez em 2001. Repeti então o ano de MP* no liceu Condorcet (Paris, 9.º bairro). Falhei o concurso da Polytechnique uma segunda vez em 2002.

A minha primeira casa foi um quarto de criada de 9 m² no 16.º bairro de Paris... mas com vista para a Torre Eiffel!

Orientei-me então para uma carreira de investigador em matemática, seguindo o percurso de magistère e mestrado em matemática fundamental da Universidade Paris XI (Orsay), de 2002 a 2005. A vida, porém, reservava-me um destino bem diferente...

As minhas primeiras armas de empreendedor

Não esperei pelo fim dos estudos para começar a fazer negócios. Quando estava na preparatória em Condorcet (em 2001), eu e três colegas de turma fomos designados organizadores da festa anual do liceu: a Soirée Condorcet. Estava a mil léguas de imaginar que essa experiência ia mudar o meu destino de matemático.

Adorei profundamente organizar essa festa: era um desafio, comecei a tomar contacto com o mundo dos negócios, conheci imensa gente, ganhei dinheiro (vários milhares de euros!!), e o resultado foi excecional, com cerca de 1200 pessoas presentes no evento!

Com o dinheiro que ganhei, comprei o meu primeiro PC. A minha primeira ligação à Internet seguiu-se de imediato, com os famosos CD-ROM de ligação gratuita 56k da AOL, Club Internet e afins. E desde então nunca mais me desliguei da web...

Criei o meu primeiro site web em 2002, e em 2003 aderi ao programa de remuneração publicitária AdSense para ganhar dinheiro na Internet: nascia a atividade LeeX Network!

Em paralelo, montei uma associação com o núcleo duro de amigos que me acompanharam na organização da Soirée Condorcet. E voltámos a fazê-lo: organização de eventos em Paris. Foi um período fantástico. Essa associação deu origem, alguns anos mais tarde, em 2006, à minha primeira verdadeira empresa, especializada em marketing de eventos, uma SAS francesa com 37 000 € de capital: a F Entreprise.

A queda...

Em 2006 tinha 25 anos. Jovem, sem experiência mas com uma vontade feroz, bati-me com alguns amigos para lançar a F Entreprise. O business plan que tinha demorado tanto tempo a elaborar revelou-se muito diferente do que viria a acontecer.

As nossas primeiras festas, que deviam fazer descolar a atividade, foram fracassos. Foi então que tomei consciência da importância fundamental da tesouraria na gestão de uma empresa. Tínhamos imensas ideias, tínhamos um potencial real, mas nenhum produto ou serviço que gerasse dinheiro de imediato.

Num último fôlego, conseguimos recuperar revendendo na Internet produtos impressos a organizadores de eventos, um meio cujas necessidades conhecíamos bem. Começámos a ganhar dinheiro na web, mas cometi nesse momento dois erros fatais: aumentei sem esperar os custos fixos mensais (alugando escritórios maiores), e o meu negócio dependia de um único fornecedor, que nem sempre entregava produtos de qualidade...

As devoluções de produtos afluíram, a desmotivação do que restava da minha equipa seguiu-se, e tudo desembocou numa conta bancária a seco... Menos de dois anos depois da sua criação, a F Entreprise fechou portas.

Arranjei um trabalho miserável (batatas fritas e caixa no McDonald's de Les Ulis, nos arredores de Paris) para pagar a renda e saldar as dívidas. Caí em depressão. Sentia-me um zé-ninguém. Tinha tocado no fundo. Era o final de 2007.

A descoberta das vendas, ou como ter sucesso em tudo na vida

Depois de passar vários meses sem sair da cama, deixando-me definhar, disse para mim mesmo: «Simon, isto não pode acabar assim». Liguei o computador e atirei-me à primeira oferta de emprego que não exigia diploma nem experiência, mas oferecia mesmo assim um salário razoável e benefícios... Tornei-me assim técnico-comercial de terreno para a Securitas Direct (Verisure). Em termos simples, pus-me a vender alarmes porta a porta :D

À primeira vista pode parecer degradante para um titular de um curso superior de cinco anos em matemática, ainda por cima vindo de maths sup / maths spé. Mas foi a experiência MAIS ÚTIL de toda a minha vida.

Desde logo, permitiu-me voltar a socializar (tinha cortado todo o contacto com seres humanos durante meses). Mas sobretudo, ensinaram-me o segredo para ter sucesso na vida: saber vender.

Na verdade, não era a minha primeira experiência de vendedor: enquanto estudante, trabalhava aos fins de semana e nas férias como vendedor de máquinas Nespresso. Pagavam-me uma miséria, mas o suficiente para a renda e alguns lazeres (vivo sozinho e sustento-me a mim próprio desde os 17 anos). Já nessa época adorava vender; gostava sobretudo do contacto com o cliente e da satisfação de resolver um problema com o meu produto.

Nunca saberei agradecer o suficiente aos instrutores que me ensinaram a arte da venda na Securitas Direct. Deram-me um superpoder: ser capaz de vender qualquer coisa a qualquer pessoa, de imediato.

Apercebi-me de que uma multinacional como a Securitas Direct construiu o seu sucesso com a venda porta a porta. Compreendi que vale muito mais ser bom vendedor do que ter um bom produto; que nenhuma estratégia de marketing, por mais intelectual que seja, substituirá a eficácia de uma abordagem pessoal e de uma venda direta. Tinha agora dominado a ferramenta que me ia fazer vencer: a venda.

Depois da Securitas, trabalhei para dois promotores imobiliários e para a marca Alter Eco, sempre como comercial (chefe de setor na região oeste de França).

De volta à estrada do empreendedorismo!

Não se muda quem se é... Nasci empreendedor, morrerei empreendedor. No final de 2009 larguei tudo: demiti-me do meu cargo de chefe de setor confortavelmente remunerado, com bonito carro de função, cartão de combustível ilimitado, telefone ilimitado, cartão de portagens ilimitado, vales de refeição, etc., para voltar a trabalhar por conta própria.

Retomei uma velha atividade: a LeeX Network. Na verdade, nunca tinha deixado de cuidar dos meus sites; mantinha-os regularmente, criava novos de vez em quando, e rendiam-me algumas centenas de euros por mês.

Decidi também realizar um sonho: deixar a França e instalar-me num país da Europa de Leste. A atividade LeeX Network não exige que esteja em França; só preciso de uma ligação à Internet. Escolhi a República Checa (pronto, os puristas dirão que fica na Europa Central...). Cheguei a Praga no início de janeiro de 2010.

Vivi lá dois anos extraordinários, inesquecíveis. Conheci pessoas de todos os horizontes (há muitos expatriados em Praga), aprendi checo, vivia num belíssimo duplex em pleno centro da cidade, passava os dias a passear, a comer fora, a fazer compras, e à noite ia à festa!

Algumas horas por dia (duas a três no máximo), trabalhava nos meus sites. Jornalistas franceses redigiam artigos que eu publicava na Internet. E pronto, era todo o trabalho que fazia.

Mas ao fim de dois anos, cansei-me dessa vida. Além disso, sentia-me totalmente inútil na sociedade. Ganhava dinheiro com alguns sites, mais por técnica do que por qualidade. E a maior parte do tempo não passava de um consumidor. Queria criar uma verdadeira empresa, e queria aventura. Tinha também o pressentimento de que não poderia viver eternamente desses sites (e o que se seguiu deu-me razão).

A navegar na Internet, deparei com a entrevista de um homem que tinha partido para uma ilha perdida e lá enriquecera. Estava decidido: também eu partia para um país exótico. Em novembro de 2011, embarquei num voo para...

Madagáscar

Choque psicológico. Mas que país é este?! Ruas sem nome, pessoas a atravessar em qualquer lado, carros que não deixam passar nenhum peão, vendedores ambulantes POR TODO O LADO, calor, aguaceiros torrenciais que transformam as estradas em rios em segundos, pobreza extrema, carrinhas a servir de autocarros nas quais os passageiros entram pela traseira, táxis 2CV ou 4L, mosquitos enraivecidos, buracos no meio das ruas, engarrafamentos contínuos...

Mas não desanimei. Tinha um visto de turista de apenas 3 meses para criar e lançar uma empresa. Tinha de me despachar. Criei então, em janeiro de 2012, a sociedade Euclide Premier Sarlu. Recrutei e formei três colaboradores antes de regressar a Praga em fevereiro de 2012. Já era uma bela vitória.

Pensava conseguir gerir os meus colaboradores à distância e só ter de me deslocar a Madagáscar três ou quatro vezes por ano. Estava enganado. Depressa percebi que, se não residisse em Madagáscar 24 horas por dia, a minha empresa não teria hipótese nenhuma.

Dilema: tinha de fazer uma escolha e deixar definitivamente um dos dois países, a República Checa ou Madagáscar. Ficar em Praga significava um novo fracasso empresarial. E isso estava fora de questão. Vendi os móveis, devolvi o meu soberbo duplex, despedi-me dos amigos e apanhei um voo para Antananarivo em maio de 2012.

Atravessei de novo um período difícil: a empresa não descolava, os sites já não rendiam, os primeiros colaboradores falharam-me, a família abandonou-me, e perguntava-me como chegaria ao fim do mês. Dizia à minha companheira que devíamos comer apenas legumes, porque a carne era demasiado cara. Temia tornar-me um daqueles franceses sem um tostão a vaguear pela Grande Ilha, um «vazaha reraka». Era o final do primeiro semestre de 2013.

Mais um esforço

Todos os meus colaboradores me tinham abandonado; um deles tentou até extorquir-me dinheiro. Não desisti.

Tinha vendido vários sites em França e em Madagáscar. O problema de um site é que só rende dinheiro uma vez. Depois é preciso encontrar outro cliente e recomeçar todo o processo. Em contrapartida, tinha reparado que o alojador web, esse, recebia uma renda anual por cada novo site posto em linha.

Reparei também que havia muito poucos alojadores web localizados no próprio Madagáscar, e que o que parecia mais sério era caríssimo. Estava decidido: ia lançar a minha atividade de alojamento web.

Passei mais de um mês inteiro a trabalhar noite E dia, no sentido literal do termo. Dormia pouco, trabalhava sem parar. Montei tudo: um servidor para os alojamentos partilhados, um sistema de faturação, um site, ofertas comerciais, etc. Comecei a fazer publicidade no Facebook e tive os primeiros clientes.

Mas não avançava depressa o suficiente. Para comprar alojamento web, o cliente tem primeiro de criar o seu site... Decidi então voltar a vender sites, mas com um conceito verdadeiramente inovador: em vez de pagar uma quantia avultada de uma só vez pela compra do site, o cliente paga uma subscrição anual que inclui a criação do site, o alojamento, o nome de domínio e o suporte.

As minhas vendas descolaram, e isso permitiu-me também conhecer muitos empresários que, de fio em fio, me compraram outros serviços (manutenção informática, consultoria, etc.).

E então, finalmente...

Hoje essa empresa de alojamento web, rebatizada Simafri, detém uma carteira de mais de 1000 clientes com subscrição ativa, incluindo prestigiadas empresas malgaxes.

A LeeX Network tem de novo uma equipa de várias dezenas de colaboradores que gere belíssimos sites, incluindo o Annuaire.mg.

Criei outra empresa, a Atout Persona, especialista em sistemas de informação (ERP, CRM), que representava então a minha maior atividade, com várias dezenas de clientes com subscrição ativa, incluindo grandes contas, e uma magnífica equipa de cerca de vinte colaboradores escolhidos a dedo.

Cheguei até a ser apresentador de televisão num canal nacional malgaxe! (O programa Webactus na RTA, para quem se lembra ;)

Estamos em novembro de 2016 e acabo de fazer 35 anos. Sei que o futuro ainda me reserva golpes duros, mas saberei como me safar; espero-os de pé firme ;) E é isso a vida!

A primeira conferência de formação

Escrevo este novo parágrafo vários meses depois de ter publicado o meu percurso na Internet. Mais precisamente, estamos a 28 de maio de 2017.

Não imaginava que este artigo tivesse tamanho impacto. Houve, claro, os numerosos comentários, as mensagens privadas e os emails; mas este relato gerou até muitos encontros IRL (In Real Life, como dizem os jovens). Vós, meus caros leitores, testemunharam-me que a minha história vos inspirava, motivava e encorajava a superar as vossas próprias provações. Muitos de vós pediram-me para ser vosso coach e para dar formações e conferências.

Ao início, declinava esses pedidos, sobretudo por falta de tempo. Mas no início de março de 2017 disse para mim mesmo: «Simon, na vida é preciso fazer coisas fora do comum, e se além disso puder ajudar o próximo, então terei sido útil cá em baixo». Decidi então dar a minha primeira conferência de formação no final de abril. Escolhi para a ocasião um tema que domino perfeitamente e que pode permitir a cada um ter sucesso na vida (pessoal como profissional): a venda.

A data ficou marcada: conferência de formação «Torne-se um Melhor Vendedor», a 26 de abril de 2017 no IKM (Instituto Cultural Malgaxe), no bairro de Antsahavola, em Antananarivo. Confesso que tinha medo de que a sala ficasse vazia. Mas mantive a fé. E foi um sucesso total! Cerca de 350 pessoas responderam presente, a sala estava cheia, e alguns aceitaram até ficar de pé porque já não havia lugares sentados!

Tinha na plateia um público de todos os horizontes: comerciais de profissão, claro, mas também empreendedores, empresários, gestores, estudantes, funcionários públicos, professores... Seguiu-se uma segunda conferência de formação: «A perseverança, a chave do sucesso».

Amo-vos, povo malgaxe, obrigado por me aceitarem entre vós! Em troca, quero partilhar convosco o que tenho de mais precioso: a perseverança!

Lançamento de uma empresa nas Maurícias!

Em maio de 2017 anunciei a minha vontade de me desenvolver para lá de Madagáscar. Neste mês de dezembro de 2017, está feito! Acabo de criar uma empresa nas Maurícias para desenvolver o meu produto-bandeira no oceano Índico e em África. É uma nova aventura que começa, um novo desafio que abraço :)

Epílogo (2026)

Parágrafo acrescentado aquando da republicação desta história no meu site pessoal, em junho de 2026.

Quase dez anos depois de ter escrito estas linhas, a aventura continua. O modelo que inventei em 2013, o site web por subscrição tudo incluído, tornou-se a Serenity by Simafri: a mesma promessa, agora industrializada pela inteligência artificial. A LeeX Network, nascida em 2003 de um CD-ROM da AOL e de uma conta AdSense, volta a partir à conquista internacional. E o projeto que mais conta para mim já não é uma empresa: a JesusBYS, uma comunidade cristã online multilingue. Pôr-me, muito simplesmente, ao serviço de Jesus.

O próximo capítulo está a ser escrito neste momento. Voltar à página inicial →